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O BRASIL DE
CABELOS
BRANCOS

EM UM MUNDO DE TELAS 

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“Eu uso a internet para cuidar de mais pessoas além da minha família.”
- Dona Mada

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“A solidão mais brutal é quando você entende que os valores que você tem não pertencem mais ao tempo presente.”
- Gerson de Sousa

Por: Ana Laura Santos, Guilherme William e Ramon de Oliveira

“Quem trabalhava pegando caixa de 10 quilos agora trabalha com uma caneta e um computador.”
-Alessandra Gomes

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A tecnologia deixa de ser apenas ferramenta de lazer e passa a ser fundamental para idosos manterem vínculos sociais, acesso à educação e troca intergeracional, especialmente diante de limitações físicas e distanciamento social.

O Brasil está envelhecendo. Segundo o Censo Demográfico de 2022, mais de 32 milhões de pessoas já têm 60 anos ou mais, o que equivale a cerca de quinze por cento da população. Esse número cresceu mais de cinquenta por cento em pouco mais de uma década. Ao mesmo tempo, o país passou por uma transformação digital. Em 2016, menos de um quarto da população idosa usava internet. Em 2023, esse percentual superou os sessenta e cinco por cento, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios. A expansão da conectividade colocou dentro do mundo online camadas da sociedade que antes tinham pouco ou nenhum acesso às redes.

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Distribuição da população idosa no Brasil em relação ao acesso à tecnologia, mostrando como o envelhecimento se conecta com a conectividade digital. Dados: Censo Demográfico 2022 (IBGE) e Pesquisa TIC Domicílios 2023 (CGI.br)

Esses dois movimentos, envelhecimento populacional e digitalização acelerada, se cruzam no cotidiano. Para quem nasceu antes da popularização da informática, a chegada do celular, das redes sociais e dos aplicativos não foi apenas uma novidade tecnológica. Ela representou um ponto de virada na forma de se relacionar com a família, com amigos e com o trabalho. 

Ao mesmo tempo em que a internet se tornou o espaço central de interação, muitos idosos ainda se viram diante da ameaça do isolamento, sem as mesmas condições de acompanhar as mudanças. A questão deixa de ser conveniência e se torna sobrevivência social.

O aumento do uso da internet entre idosos não aparece apenas nos números das pesquisas, ele se mostra no cotidiano. Nos últimos anos, diferentes perfis de pessoas mais velhas passaram a ocupar as redes sociais de forma ativa. O casal Nair e Nelson, de São Bernardo do Campo, ganhou milhões de seguidores no TikTok com vídeos de humor. Dona Cora, já com mais de oitenta anos, encontrou no Instagram uma forma de falar sobre beleza e autoestima, transformando em conteúdo o que antes era rotina doméstica. Há também experiências intergeracionais, como a de Anésio, que aparece em vídeos com o neto Caio e que já alcança milhões de visualizações. Esses exemplos ajudam a entender que a presença digital da terceira idade não é exceção, mas parte de um movimento que cresce à medida que mais pessoas buscam no ambiente online alternativas de convivência e interação.

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Linha do tempo sobre a expansão digital com ênfase na inclusão de idosos de de acordo com IBGE, Ipea Olhar digital e Agência Brasil | Imagem:Canva

Dentro desse cenário, algumas trajetórias revelam o impacto direto da tecnologia na socialização. Madalena, conhecida como Dona Mada, moradora de Araxá, em Minas Gerais, tem 75 anos e transformou os vídeos caseiros de seus treinos em uma forma de criar vínculos que ultrapassaram os limites da academia. O que começou como um recurso de autocorreção de exercícios se tornou uma rede de incentivo e troca, alcançando milhares de seguidores nas plataformas digitais.

A história de Dona Mada não começa com a internet. Ela começa com um diagnóstico. Aos 38 quilos, enfrentava sarcopenia e osteopenia, condições que afetam a força e a densidade dos ossos. A fragilidade física a levou para a academia, onde precisou lidar com movimentos que exigiam cautela. O ambiente que poderia parecer hostil se transformou em espaço de acolhimento.

“Fui muito bem aceita, todos me ajudaram, me trataram com carinho”, lembra.

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A cada exercício realizado, havia também o desafio de se sentir parte daquele espaço. O apoio recebido foi o primeiro passo para a construção de uma nova rotina. Com a ajuda da filha, começou a gravar vídeos dos treinos para observar os próprios movimentos. O que era inicialmente uma ferramenta pessoal logo ganhou outra dimensão.

Os registros, que nasceram como forma de acompanhamento, começaram a circular e atrair a atenção de outras pessoas. Aos poucos, a prática da musculação ultrapassou o campo da saúde e entrou no da convivência. Os comentários se multiplicaram, transformando o esforço individual em uma experiência coletiva.

“É uma verdade. Porque você grava e vê os defeitos. Você consegue corrigir, porque aí você consegue ver onde  errou”, conta.

“Eu incentivo vocês, mas vocês também me incentivam. É uma troca”, afirma.

O digital ampliou a academia para além das paredes físicas. Hoje, Dona Mada compartilha rotinas de treino com centenas de milhares de seguidores. A cada vídeo publicado, reforça não apenas sua própria disciplina, mas também o vínculo com uma comunidade que cresce em torno dela.

A experiência mostra como a tecnologia pode funcionar como extensão de espaços de socialização já existentes, permitindo que conexões locais se tornem redes globais.

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Dona Mada acorda todos os dias 3:00Am para começar sua rotina em casa e nos treinos. IMAGEM: Arquivo pessoal da Dona Mada

Tecnologia na maturidade

A tecnologia, para muitos idosos, não se limitou a transformar a rotina ou ampliar círculos de amizade. Ela também redefiniu a forma de ocupar o espaço público e privado. Alessandra Gomes, de 51 anos, precisou lidar com uma limitação funcional após uma cirurgia que restringiu sua mobilidade no braço. Para ela, o celular não era apenas um objeto de lazer: era a ponte que a conectava com familiares, amigos e colegas de trabalho.

 “Antes, eu me sentia meio isolada. Agora, consigo participar de conversas, grupos, até reuniões do trabalho, sem sair de casa”, conta.

O relato evidencia que, para uma parte significativa da população mais velha, o acesso à internet deixou de ser um luxo ou curiosidade e passou a ser ferramenta de sobrevivência social, permitindo a manutenção de vínculos que seriam difíceis de sustentar de outra forma.

As interações digitais também abriram caminho para novas formas de aprendizado. Cursos online, grupos de estudo e tutoriais no YouTube se tornaram recursos indispensáveis. Em Araxá, Dona Mada começou a utilizar vídeos de treino para corrigir movimentos, mas também se deparou com aulas de nutrição, fisioterapia e até meditação. 

A variedade de conteúdos disponíveis fez com que a internet se tornasse um laboratório de autodesenvolvimento, onde cada clique podia gerar conhecimento prático e aplicável. O digital ampliou o alcance da educação, antes limitada a instituições físicas, e possibilitou que pessoas que enfrentam barreiras físicas ou sociais continuassem ativas.

Além do aprendizado e do autocuidado, as redes sociais funcionaram como territórios de expressão e visibilidade. Cora, já com mais de 80 anos, percebeu que falar sobre beleza e autoestima podia ter impacto além de sua própria vida. A princípio, suas postagens eram apenas um diário visual, mas aos poucos ela percebeu que o conteúdo ressoava com outras mulheres da mesma faixa etária. A plataforma se transformou em um espaço de diálogo e inspiração, quebrando estigmas sobre a idade e redesenhando padrões de representação social.

Experiências intergeracionais também ganharam força. Anésio e seu neto Caio viralizaram com vídeos que misturavam brincadeira, afeto e aprendizado mútuo. Esses conteúdos não apenas entretêm, mas funcionam como ponte entre gerações, permitindo que adolescentes e jovens observem perspectivas diferentes sobre envelhecimento, história e memória familiar. 

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Caio e o vovô anesio somam mais de 6 milhões de seguidores no tiktok | IMAGEM: Tiktok Caioeovovoanesio

Ao mesmo tempo, reforçam nos mais velhos a sensação de utilidade e pertencimento a um grupo mais amplo do que o familiar. Para muitos, essa troca é tão significativa quanto a interação presencial, especialmente em contextos em que a mobilidade é limitada ou quando familiares moram longe.

Conectividade e desafios do dia a dia

A internet transformou a rotina de muitos idosos, mas nem todos tiveram o mesmo acesso nem a mesma facilidade para se adaptar. A disparidade de experiência digital dentro da própria terceira idade é grande. Alguns, como Dona Mada, navegaram com relativa facilidade após um primeiro contato bem-sucedido com smartphones e aplicativos; outros enfrentam barreiras tanto tecnológicas quanto cognitivas.

Questões simples, como entender o funcionamento de senhas, configurar notificações ou usar aplicativos de vídeo chamada, podem ser desafios significativos, mas que impactam diretamente na socialização e na autonomia.

Alessandra, com sua limitação funcional pós-cirurgia, encontrou na tecnologia uma forma de se manter presente em diversas esferas de sua vida, mas não sem esforço. Cada interação digital exige uma dose de paciência e experimentação. O suporte da família, especialmente de filhos e netos, é muitas vezes decisivo. Sem esse auxílio, o risco de exclusão aumenta, e a tecnologia, em vez de ser ponte, pode se tornar barreira. É nesse ponto que a experiência digital da terceira idade evidencia a importância de políticas públicas, cursos comunitários e iniciativas intergeracionais, voltadas não apenas para o acesso, mas para o uso efetivo e significativo da tecnologia.

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Alessandra Gomes se forma no curso de informática no Senai após ser afastada pelo INSS | IMAGEM: Arquivo pessoal de Alessandra.

Estudos recentes indicam que, mesmo com a expansão da conectividade, ainda há idosos que permanecem fora do mundo digital por limitações econômicas, físicas ou cognitivas. Essa exclusão não é apenas questão de lazer ou entretenimento, mas de participação social. Participar de grupos de WhatsApp, acompanhar notícias online e interagir em redes sociais deixou de ser um extra: é parte da maneira contemporânea de manter vínculos e exercer cidadania.

Aprender nunca envelhece

A experiência digital também abriu portas para a aprendizagem contínua. Muitos idosos descobriram, através de tutoriais no YouTube, cursos online e grupos de estudo, que podem expandir habilidades que antes eram consideradas inacessíveis. Dona Mada, ao compartilhar seus vídeos de treino, também explorou  outros tipos de conteúdos. Cada clique no conteúdo educativo se transformou em aprendizado aplicado, fortalecendo não apenas corpo e mente, mas também a sensação de pertencimento a um universo em constante movimento.

Cora, por outro lado, encontrou na internet um espaço para aprendizado social e cultural. Ao produzir conteúdos sobre beleza e autoestima, ela não apenas aprimorava sua própria prática, mas interagia com outras mulheres que buscavam referências para se sentirem mais confiantes. Para muitos idosos, aprender tornou-se sinônimo de se manter ativo, visível e conectado. O digital expandiu o conceito de “espaço de aprendizado”, que antes era restrito a cursos presenciais, livros ou encontros comunitários, permitindo que qualquer pessoa com acesso à internet pudesse desenvolver novas competências.

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Cora grava vídeos de beleza para internet inspirando milhares de jovens | IMAGEM: Tiktok blogdacora

O aprendizado online também se conecta à manutenção da autonomia. Entender de aplicativos de saúde, exercícios físicos, dietas personalizadas ou técnicas de autocuidado é, para alguns, tão crucial quanto aprender a usar redes sociais. Essa apropriação da tecnologia não apenas evita isolamento, mas fortalece a capacidade de tomar decisões informadas sobre saúde, lazer e relacionamentos.

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Dados do Tic Domicílio revela o aumento exponecial de idosos na internet em 2023 IMAGEM: Gemini

Redes de afeto e pertencimento

A tecnologia possibilitou ainda a formação de redes de afeto que transcendem o espaço físico. Dona Mada, ao registrar e compartilhar seus treinos, estabeleceu interações que reforçavam motivação e disciplina. O efeito não se restringe à experiência individual; cada comentário positivo ou pergunta sobre exercícios cria um ciclo de estímulo mútuo, transformando o esforço pessoal em experiência coletiva.

O impacto dessas redes vai além do virtual. Para muitos idosos, a participação em grupos de mensagens ou comentários diminui a sensação de isolamento,  criando um sentimento de utilidade social e pertencimento. Outras presenças digitais, como a de Cora e Anésio, mostram que o fenômeno não se restringe a um único perfil: ele se manifesta de formas variadas, em conteúdos de beleza, humor ou interações intergeracionais, reforçando a ideia de que a participação online é um direito e uma ferramenta de pertencimento.

Essas conexões também têm efeitos sobre percepções culturais e sociais: a presença digital permite desafiar estereótipos sobre envelhecimento, mostrando que a idade não determina a capacidade de se engajar, ensinar ou aprender. O que começou como ação individual se transformou em fenômeno coletivo, inspirando outros a buscar presença digital e a se engajar de maneira significativa em suas comunidades.

Inclusão digital e desigualdade

Apesar dos avanços, nem todos os idosos conseguiram acompanhar essa transformação. A inclusão digital ainda é desigual, marcada por fatores econômicos, geográficos e educacionais. A expansão da internet em grandes centros urbanos contrasta com áreas rurais ou periferias, onde a conexão é limitada ou instável. A experiência de acesso não é apenas sobre disponibilidade de dispositivos ou sinal: envolve educação digital, suporte familiar e confiança para experimentar novas tecnologias.

Para alguns, a frustração inicial pode desencorajar o uso contínuo. Nesse contexto, iniciativas comunitárias, projetos de inclusão digital e cursos voltados para a terceira idade se tornam essenciais. Organizações e programas desse tipo não apenas ensinam técnicas de uso, mas também criam espaços de socialização, troca de experiências e apoio mútuo, reforçando o sentimento de pertencimento e cidadania. A desigualdade de acesso impacta diretamente a participação social e a autonomia, evidenciando que, mesmo em tempos de expansão digital, o acesso pleno à tecnologia ainda é um desafio para muitos.

Interações intergeracionais

A presença digital de idosos não apenas redefine a forma como se relacionam com a tecnologia, mas também transforma as dinâmicas entre diferentes gerações. Anésio, ao criar vídeos com o neto Caio, exemplifica o potencial de aprendizado compartilhado. Os mais jovens aprendem sobre história, memórias familiares e experiências de vida; os mais velhos se conectam com códigos culturais contemporâneos, tendências e tecnologias. Essa troca cria diálogo entre gerações e permite que a internet funcione como espaço de coaprendizado e afeto, aproximando familiares que, por questões de distância ou rotina, teriam pouca oportunidade de interação presencial.

A intergeracionalidade não se limita ao âmbito familiar. Em grupos de redes sociais, fóruns online e comunidades de interesse, idosos e jovens trocam experiências, dicas e referências culturais. Esses espaços não apenas aumentam a confiança tecnológica dos mais velhos, mas também contribuem para redefinir a percepção social sobre envelhecimento, mostrando que a idade não determina a capacidade de se engajar, ensinar ou aprender.

Estudos recentes corroboram essa visão. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia destaca que programas intergeracionais promovem a inclusão social de idosos, combatendo a discriminação etária e fortalecendo vínculos comunitários. Além disso, a convivência entre gerações favorece o processo de ressocialização, proporcionando aos mais velhos um sentido de pertencimento e utilidade social .

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Outro estudo realizado pela Universidade de São Paulo, revela que iniciativas de letramento digital intergeracional contribuem significativamente para a autonomia dos idosos, permitindo-lhes acessar serviços e informações essenciais de forma mais independente. A pesquisa enfatiza que a troca de conhecimentos entre jovens e idosos não apenas melhora as habilidades digitais dos mais velhos, mas também amplia sua participação ativa na sociedade .

Esses exemplos ilustram como a intergeracionalidade, mediada pela tecnologia, pode ser um catalisador para a transformação social, promovendo a inclusão, o aprendizado mútuo e o fortalecimento dos laços comunitários. Ao integrar diferentes gerações no ambiente digital, criamos uma rede de apoio e troca que beneficia todos os envolvidos, desafiando estereótipos e construindo uma sociedade mais conectada e solidária.

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Evidências acadêmicas:

estudo de Sabrina Alvaro e Gerson de Souza

O olhar de Gerson encontra respaldo em pesquisas acadêmicas recentes, que ajudam a compreender de forma mais concreta como a inclusão digital pode impactar a vida dos idosos. Professor e pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, ele dedica seus estudos à sociologia do envelhecimento, analisando como a tecnologia pode servir para reconstruir vínculos e ressignificar a velhice. Para Gerson, o uso de ferramentas digitais não é apenas técnico, mas profundamente social e afetivo.

"Então, quando você inicia cursos de informática, cursos de uma série de coisas, é para, de alguma forma, você conseguir colocar elas dentro de um mesmo quadro das pessoas mais novas. Não da questão do uso, que as pessoas mais novas fazem usos muito mais profundos, mas que você tenha, pelo menos, um mínimo de uso que quebra exatamente o discurso de que a tecnologia supera o humano. E quando uma pessoa mais velha faz isso no TikTok, quando monta uma comunidade, o que ela está colocando a dizer é que é uma crítica a uma comunidade, ou uma afirmação, que leva com que os velhos passem a se reorganizar. As pessoas mais velhas passam a se reorganizar de forma que não sejam sentidas só em suas lembranças, mas no tempo presente. E para existir no tempo presente, não bastam mais os meus dilemas. É preciso que eu recorra à
tecnologia e comunidades para que as pessoas consigam entender que não é só um grupo de
adolescente que consegue fazer isso, não é só influenciadores digitais que podem fazer isso,
não, você tem pessoas que pertencem à comunidade."

Exclusão digitalGerson de Souza
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O trabalho de Sabrina Álvaro complementa o que Gerson aponta, intitulado “Mapeamento de competências digitais: a inclusão social dos idosos”, publicado em 2016 na revista Educação Temática Digital. A pesquisa investigou o impacto de oficinas de inclusão digital em centros comunitários, com foco no desenvolvimento de competências digitais em participantes com 60 anos ou mais.

O estudo foi desenvolvido em três etapas: primeiro, a construção de um referencial teórico sobre alfabetização, letramento e fluência digital; depois, a realização de cursos de extensão voltados à aprendizagem tecnológica; e, por fim, a coleta e análise de dados obtidos com 31 idosos participantes. O objetivo principal era mapear as habilidades digitais adquiridas, mas também observar os efeitos da participação em atividades de inclusão digital na vida social e afetiva dos participantes.

Segundo Sabrina Álvaro, os resultados foram claros: os idosos demonstraram abertura para novas aprendizagens e a participação em atividades de letramento digital fortaleceu vínculos intergeracionais e comunitários, aumentando o engajamento social e a sensação de pertencimento. A pesquisa identificou cinco competências digitais fundamentais, distribuídas em três grupos: alfabetização digital, letramento digital e fluência digital. Cada grupo representava não apenas habilidades técnicas, mas também a capacidade de usar a tecnologia para se relacionar, comunicar e participar da sociedade.

“A participação em atividades de letramento digital não apenas facilita o acesso a ferramentas tecnológicas, mas fortalece vínculos intergeracionais e comunitários, promovendo maior engajamento social.” - Trecho do estudo: "Mapeamento  de competências digitais: a inclusão social dos idosos"

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O trabalho de Sabrina complementa o que Gerson já apontava em sua pesquisa mostrando que  a inclusão digital vai além do simples aprendizado de aplicativos ou dispositivos. É uma ferramenta que cria redes de afeto, aproxima gerações e resgata o protagonismo social do idoso. Ao participar ativamente de cursos e oficinas, os idosos passam a ocupar papéis de relevância na família e na comunidade, trocando experiências, compartilhando conhecimentos e construindo novos sentidos para o envelhecimento.

Além disso, os efeitos não se limitam ao indivíduo. Famílias inteiras, vizinhos e comunidades se beneficiam da presença digital dos idosos, que agora se tornam pontos de conexão e referência, capazes de inspirar outros a se engajar e explorar novas formas de participação. Essa dinâmica reforça o argumento central de Gerson: a tecnologia sozinha não transforma; o que gera mudança é a oportunidade de interação, o cuidado pedagógico e a construção de espaços sociais inclusivos.

Ao integrar teoria acadêmica e prática observada, o estudo de Sabrina mostra que a transformação digital não é casual nem isolada. É produto de uma combinação entre metodologia estruturada, atenção individualizada e estímulo ao engajamento social, conectando habilidades técnicas a experiências culturais e afetivas. É exatamente essa combinação que permite que projetos de inclusão digital tenham impacto duradouro, ampliando não apenas o acesso à tecnologia, mas também a qualidade de vida e o protagonismo social dos idosos.

Ressignificar a Velhice
em um País Digital

“Eu cuido de 194 mil pessoas”

Diz Dona Mada com a serenidade de quem sabe que os números não cabem só em métricas de seguidores. Eles traduzem vínculos. Cada vídeo que publica e cada mensagem respondida formam uma rede invisível de apoio que atravessa a tela do celular. Para ela, não se trata apenas de treinar ou de postar: é sobre oferecer companhia e escuta  em um espaço onde muitos idosos ainda se sentem sozinhos.

Essa fala resume uma transformação maior. Ao mesmo tempo em que a população brasileira envelhece, cresce também a necessidade de repensar o lugar dos mais velhos em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia. Se, no início, a chegada da internet parecia um território distante ou até hostil, hoje ela se tornou um caminho de ressocialização. Não apenas reconecta idosos a familiares e amigos, mas abre possibilidades de participação ativa em comunidades digitais, coletivos de interesse e movimentos culturais. O digital, nesse contexto, não é só ferramenta mas sim uma linguagem, e  em muitos casos, é a própria chance de existir socialmente.

Da exclusão ao pertencimento

As entrevistas e trajetórias reunidas nesta reportagem mostram que, para os idosos, estar conectado vai além do uso prático de aplicativos ou redes sociais. O que está em jogo é o sentimento de pertencimento. A exclusão digital, quando somada à exclusão social, aprofunda o isolamento. Já a apropriação das tecnologias abre espaço para reconstruir identidades e reivindicar presença em uma sociedade que insiste em invisibilizar a velhice.

E quando refletimos sobre a experiência individual de cada idoso conectado, o professor pesquisador Gerson de Sousa lembra que a tecnologia sozinha não transforma. Para que haja mudança efetiva, é preciso suporte, orientação e atenção às barreiras cognitivas, físicas e econômicas enfrentadas pelos mais velhos.

"Então, quando você consegue montar uma comunidade, você consegue acompanhar o
cotidiano de uma pessoa mais velha. Você consegue entender que ela existe no tempo
presente, e, só a partir daí, ela consegue passar coisas do passado que você se interessa. Se
você não chega nesse ponto, ainda continua aquele discurso das pessoas mais velhas como
presa ao passado.
Só que era um valor, o passado. E, para nós aqui, ele se torna um desvalor, porque você está
usando outras diferenças para estabelecer como qualificadoras de ser sujeito dentro do
contexto. Então, por isso que é um elemento muito positivo quando apresenta isso, uma
pessoa de 70 anos, uma mulher de 70 anos que monta uma comunidade e que exige com que
você passe a olhar para ela como existente no cotidiano.
Nossa, isso é um valor tremendo."

ComunidadeGerson de Souza
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Esse processo, no entanto, não acontece de forma homogênea. Como vimos, fatores econômicos, educacionais e geográficos moldam os caminhos de cada um. Há idosos que encontram apoio familiar para iniciar a vida digital, enquanto outros dependem de iniciativas comunitárias ou projetos institucionais. Em todos os casos, a linha que separa inclusão de exclusão é fina e exige atenção constante.

É nesse ponto que a tecnologia se conecta à ressocialização. A cada grupo de WhatsApp, por exemplo, nasce a possibilidade de manter laços comunitários. A  cada vídeo publicado, reafirma-se o lugar de quem envelhece como sujeito ativo, capaz de ensinar e aprender.

Vozes que ecoam além da tela

Dona Cora, ao falar sobre beleza e autoestima, e Anésio, ao criar vídeos com o neto Caio, já haviam mostrado que o digital não é só sobre técnica, mas sim sobre narrativa. São histórias de vida que encontram novas formas de serem contadas, rompendo barreiras geracionais.

Mas há também a experiência de Alessandra, que enfrentou a limitação funcional depois de uma cirurgia. O  isolamento poderia acontecer a qualquer momento uma vez que, as restrições do corpo afetaram a rotina, os encontros e até a forma de se enxergar. Foi na conexão online que ela encontrou a primeira saída. Em grupos de mensagens e comunidades digitais, descobriu companhia nos dias em que a presença física ainda era difícil. A internet funcionou como espaço de pertencimento e, ao mesmo tempo, como ponte para a retomada da vida social fora das telas. Sua trajetória mostra que a inclusão digital pode ser também inclusão emocional.

E quando escutamos o professor Gerson de Sousa, percebemos que há algo mais profundo nessas situações. Para ele, a solidão não é apenas ausência de companhia, mas a sensação de que saberes, experiências e memórias acumuladas ao longo da vida já não encontram espaço no tempo presente. Ele aponta que a sociedade, muitas vezes, encara a velhice como obstáculo, o que contribui para processos de desumanização e invisibilidade social.

"Vocês vão chegar na velhice, e vocês vão
entender  o que você quer sempre buscar... Claro que tem personalidades diferentes, uma série
de coisas. Mas uma das coisas que você busca é sempre a ideia de fazer com que as pessoas compreendam
a realidade. Fazer com que as pessoas sigam um caminho. E não cometer os mesmos
erros que já foram cometidos. Você consegue ter uma historicidade... Imagina você viver 70
anos. Você tem uma historicidade que você consegue identificar. Não, aquilo é o caminho errado.
Não precisa fazer determinadas coisas. Eu preciso acolher, eu preciso fazer isso.
Quando você descobre que as pessoas próximas não têm esse interesse, só tem uma saída. E a
internet abriu essa saída, e eu consegui entender exatamente a
frase que você falou dela aqui. ( agora eu cuido de 194 mil pessoas ). 
Ora, se eu não tenho mais o meu grupo familiar, eu posso ter uma comunidade mais ampla do que isso.
São pessoas que passam a ser minha família por atribuir valor, por considerar que o valor que
eu tenho são atribuídos aqui."

MemóriasGerson de Souza
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O que iniciativas como as de Dona Mada, Alessandra e tantos outros mostram é justamente o contrário: que o digital pode ser espaço de reumanização. Ao invés de representar uma barreira, a tecnologia funciona como ferramenta de reconhecimento, devolvendo aos mais velhos a sensação de que ainda têm o que compartilhar, e que suas experiências têm valor.

Do individual ao coletivo

O estudo de Sabrina Machado reforça esse ponto. Ao mapear competências digitais de idosos que participaram de cursos de inclusão, ela mostrou que os efeitos individuais — como maior confiança e autoestima — reverberam em esferas coletivas. Famílias e comunidades inteiras se beneficiam do envolvimento digital de seus membros mais velhos.

Essa reverberação ajuda a entender por que as redes sociais de influenciadores idosos crescem tanto. Não é apenas sobre entretenimento, mas sobre representatividade uma vez que, cada postagem e cada comentário são pequenas afirmações de que a velhice não precisa ser sinônimo de silêncio ou invisibilidade.

Quando idosos assumem a produção de conteúdo, passam a ocupar um espaço simbólico importante mostrando que ainda podem ser protagonistas. E, nesse protagonismo, há algo que se estende para além da tela — um convite para que a sociedade reconheça que envelhecer não significa perder voz, mas encontrar novas formas de se expressar.

Uberlândia como laboratório

É nesse ponto que experiências locais ganham relevância. Em Uberlândia, por exemplo, instituições públicas e comunitárias vêm desenvolvendo iniciativas para aproximar idosos das tecnologias digitais

O Centro Educacional de Assistência ao Idoso (CEAI) oferece cursos regulares de informática básica e uso de smartphones, voltados especialmente para pessoas acima de 60 anos. As aulas não se limitam ao aprendizado técnico mas também são momentos de socialização e uma troca de experiências para o fortalecimento de laços comunitários.

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Centro de convivência que oferece atividades físicas, culturais e de lazer para idosos da cidade. IMAGEM: CEAI Morumbi - Uberlândia

Outro exemplo é o projeto Inclusão Digital para a Terceira Idade, desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e organizações locais. Com oficinas práticas, o programa introduz desde noções básicas de navegação até o uso de aplicativos de saúde, bancos digitais e redes sociais, sempre priorizando a segurança e a autonomia dos participantes.

Essas iniciativas mostram que, quando há investimento em formação e acolhimento, a tecnologia deixa de ser obstáculo e se torna aliada. Mais do que ensinar a usar um celular, esses projetos criam redes de pertencimento e devolvem aos idosos um lugar de protagonismo social.

Ressocialização como horizonte

No fundo, todas as histórias, falas e pesquisas reunidas  convergem para um ponto: a ressocialização. A questão não é apenas aprender a lidar com aparelhos ou aplicativos, mas reconstruir formas de estar junto em uma sociedade fragmentada.

Ao ocupar o digital, idosos criam comunidades que rompem o silêncio do isolamento. Ao participar de cursos e oficinas, encontram espaços de acolhimento que muitas vezes faltam no cotidiano e quando eles compartilham essas  experiências, devolvem à sociedade a lembrança de que envelhecer não é sinônimo de desaparecer, mas de reinventar-se.

Alessandra ilustra isso bem: ainda em processo de recuperação, ela encontrou no digital um espaço para manter a vida em movimento. Sua experiência se soma à de Dona Mada, de Cora, de Anésio e de tantos outros, formando um mosaico de trajetórias que, juntas, mostram a potência da tecnologia como ferramenta de pertencimento.

UMA PAUSA NA LEITURA 
PARA ASSISTIR AO VÍDEO EXCLUSIVO QUE A DONA MADA FEZ PARA NOSSA REPORTAGEM:

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Vídeo feito com exclusividade para a nosssa reportagem disponível em TikTok: madalenalcos

O BRASIL DE CABELOS BRANCOS

EM UM MUNDO DE TELAS

O Brasil tem hoje mais de 32 milhões de idosos. Esse número continuará crescendo nas próximas décadas, tornando urgente a discussão sobre como a tecnologia pode contribuir para que o envelhecimento seja vivido com dignidade, autonomia e participação.

Se o país está envelhecendo, ele também precisa amadurecer na forma como olha para os mais velhos. Isso significa enxergar a inclusão digital não como luxo, mas como necessidade. Significa também investir em políticas públicas, fortalecer iniciativas comunitárias e criar condições para que cada idoso tenha a chance de estar conectado — não apenas às redes, mas às pessoas  e aos espaços que dão sentido à vida.

Quando Dona Mada diz que cuida de 194 mil pessoas, ela sintetiza o potencial desse movimento. No gesto simples de compartilhar um vídeo de treino, ela oferece cuidado, afeto e companhia. E, ao mesmo tempo, recebe de volta a certeza de que não está sozinha.

É essa troca que sustenta o futuro. Um futuro em que envelhecer não é sinônimo de isolamento, mas de conexão. Um futuro em que o Brasil de cabelos brancos encontra, nas telas, não uma barreira, mas uma janela para continuar vivendo plenamente.

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Este site está vinculado às disciplinas de PIC III e Jornalismo Digital do curso de Jornalismo da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) © 2025
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